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Portugueses na Holanda

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A História de Sinterklaas

Imagem de CrazyPhunk & Gaby Kooiman, CC BY-SA 3.0 via Wikimedia Commons

 

Conhecido como São Nicolau em português, o Sinterklaas é a festa natalícia das crianças holandesas a 5 de Dezembro. No presente envolto em polémica, no passado não foi melhor e a tradição viu constantes mudanças ao longo dos tempos.

 

A veneração a São Nicolau começa logo após a sua morte e a sua comemoração na forma moderna deriva muito do livro infantil "São Nicolau e seu servo" de 1850, escrito pelo autor e poeta holandês Jan Schenkman. Mas a história de Nicolau começa muito antes. Muitos séculos atrás.

Nicolau de Myra

Nicolau de Mira nasceu em Patara, na região de Antália, Turquia, mas que no ano de 280 DC pertencia ao Império Romano. Mais tarde, Nicolau tornou-se bispo de Myra, capital da região. Ele morreu a 6 de Dezembro de 342. Logo após sua morte, a Igreja de São Nicolau, onde foi sepultado, tornou-se um local de peregrinação. Séculos depois, muçulmanos invadiram a área e os seus restos mortais foram levados em segredo para a cidade de Bari, Itália, em 1087. A partir daí, a veneração a São Nicolau começou a crescer também na Europa Ocidental.

A história mais conhecida é a de um homem pobre com três filhas que, graças aos presentes de Sinterklaas atirados por uma janela aberta, puderam casar-se e assim não recorrer à prostituição para sobreviverem. Provavelmente é daí que vem a tradição de lançar moedas de chocolate e os biscoitos chamados "pepernoten e kruidnoten".

Em lendas posteriores esses presentes acabariam por aparecer dentro do calçado junto às lareiras. 800 anos após a sua morte, várias lendas acabaram por levar a que São Nicolau fosse o padroeiro das crianças. Uma dessas lendas vem do norte da França, onde três crianças são trazidas de volta à vida por São Nicolau. Há também uma outra lenda sobre uma criança que é salva de ser queimada pela água quente de um banho.

Idade Média

Já no final da Idade Média surgiram os primeiros mercados de Sinterklaas. Após as celebrações religiosas, os presentes para a festa de São Nicolau eram comprados nesses mercados. O mais característico era o biscoito de gengibre na forma de pessoa. As festividades de Sinterklaas tornaram-se um festival popular problemático nas grandes cidades com tumultos e embriaguez pública. Até ao início do século XX, era costume na Holanda enviar cartas de amor na época do Sinterklaas, em que se arranjavam possíveis casamentos.

Um desses mercados de Sinterklaas ainda é organizado em Tilburg todos os anos.

O costume mais antigo do Sinterklaas é descalçar os sapatos. Na Holanda, isso tem sido feito pelo menos desde o século XV, quando os pobres colocavam os seus sapatos na igreja e os cidadãos mais ricos colocavam dinheiro neles. A partir do século XVI, essa tradição estende-se às casas, onde as crianças colocavam o seu calçado junto das lareiras com aveia e palha para o cavalo de São Nicolau.

Depois, durante a noite, os pais substituíam por maçãs, biscoitos, passas ou dinheiro. Também eram dados brinquedos, doces, pão de nozes ou um tradicional doce holandês chamado de "speculaas". A tradição era celebrada tanto na cidade como no campo. Como bebida servia-se leite com chocolate para agradecer ao Sinterklaas. Às crianças que se portavam mal era deixado sal nos seus sapatos.

A Reforma Protestante

O Sinterklaas mudou após a Reforma Protestante que tinha sérias objecções à veneração aos santos católicos. As autoridades protestantes tentaram abolir as festividades, denunciando-as como superstições católicas. Por volta de 1600, por exemplo, a cidade de Delft proibiu o Dia de Sinterklaas e outras cidades proibiram a colocação de sapatos ou a venda pública de iguarias de Sinterklaas. Martinho Lutero, o grande responsável pela Reforma Protestante, era o maior opositor porque achava que essas tradições de presentes eram mais apropriadas para o Natal.

Imagem de Unknown author, Public domain, via Wikimedia Commons

 

Com o passar dos anos, o Sinterklaas no norte da Holanda fortemente protestante, transformou-se no bicho-papão, que era usado para instigar o medo nas crianças. Isso provavelmente teve a ver com a proibição de retratar santos católicos nas regiões protestantes. O Sinterklaas era representado como um homem negro mau, com correntes nos pés ou sinos de bobo da corte. Essa figura de Sinterklaas, às vezes também chamada de Zwarte Klaas, dava doces às crianças que se portavam bem e intimidava as crianças desobedientes, contando-se que as levava no seu saco. Essa imagem do Zwarte Klaas foi o precursor do Zwarte Piet.

A tradição de Sinterklaas, entretanto, era tão popular que nunca morreu completamente, mesmo entre os mais estritos sectores protestantes da população. Várias pessoas foram reportadas por continuarem a tradição. Há um caso de um pai acusado de subir ao telhado para fazer uma marca com uma ferradura na neve, para que os seus filhos acreditassem que Sinterklaas montado no seu cavalo realmente estivera lá para deixar presentes. Embora a tradição tenha desaparecido parcialmente das ruas, ela continuou a existir nos círculos domésticos. Ainda em 1895, havia cidades que se manifestavam contra a celebração do Sinterklaas nas escolas públicas, mas no século XX a festa tornou-se cada vez mais importante.

A partir da segunda metade do século XIX, a figura do Sinterklaas passou a ser mais aceite pela sociedade e começou a ser representado por actores que se vestiam de São Nicolau. Até então ele tinha sido apenas uma figura mítica, onde apenas os presentes nos sapatos na madrugada de 5 de Dezembro atestavam a sua presença, mas que não era visível de outra forma. 

Ainda assim, no século XX, ainda havia a história das correntes do bicho-papão e do seu servo negro a colocar as crianças mal comportadas num saco. A história de que o saco de Sinterklaas era usado para levar crianças para a Espanha pode ter sua origem nos vendedores ambulantes que, desde o final da Idade Média, viajavam de cidade em cidade com suas cestas cheias de mercadorias, mas a Espanha é uma invenção do século XIX. Hoje em dia esse saco é usado apenas para transportar os presentes.

A Espanha

Segundo a tradição holandesa actual, a origem geográfica do Sinterklaas folclórico não é a Turquia ou Itália, locais onde viveu e foi sepultado, mas a Espanha. Tradicionalmente, as canções de Sinterklaas não referem a Espanha como a origem do santo, mas que ele viaja para a Espanha para obter as guloseimas que oferece às crianças. 

O exemplo mais antigo conhecido vem de 1810, onde John Pintard, fundador da Sociedade Histórica de Nova Iorque, publicou um panfleto sobre a chegada do Sinterklaas a Amsterdam num barco vindo de Espanha, onde tinha ido comprar laranjas e romãs. Um dos versículos publicados nesse panfleto é ainda mais antigo, baseado numa rima de 4 versos de 1655, na qual a Espanha ainda não era mencionada.

É geralmente assumido que o professor, autor de livros infantis e poeta Jan Schenkman (1806-1863) foi o primeiro a colocar a origem do Sinterklaas na Espanha. Segundo ele, São Nicolau era o "Bispo da Espanha". Schenkman também apresentou o servo que mais tarde se chamaria Zwarte Piet e o navio a vapor com o qual ele veio para a Holanda. Schenkman usou estas histórias no seu livro ilustrado "São Nicolau e seu servo" por volta de 1850. O livro de Schenkman foi popular e as imagens também garantiram que a comitiva e a aparência de Sinterklaas, um senhor imponente com barba e cabelos brancos, mitra e manto vermelhos, fossem adoptadas nas décadas que se seguiram.

No início do século XX, ainda existiam muitas diferenças entre a festa urbana e a festa rural. No campo era normal organizarem o "klaasjagen" e o "sunteklaaslopen" entre outras variantes locais, mas nas cidades a festa já era organizada na noite de 4 para 5 de Dezembro com a visita do Sinterklaas. Sob a influência da educação e posteriormente da comercialização e do jornalismo, surgiu uma padronização da festividade, que gradualmente tomou sua forma actual. A noite da troca de presentes em embalagens divertidas acompanhadas de poemas ou brincadeiras, é um fenômeno relativamente novo dentro da tradição.

Imagem de Tenorio81, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

 

Chega o Zwarte Piet

O Nicolau de Myra original não tinha ajudantes. Mais tarde, o Sinterklaas provavelmente também não teve nenhum ajudante na Holanda até o século XIX. Nomes como Pieter met de Pooten (1749), Pietermansknecht (1833) e Pieter-me-Knecht (1850) já haviam sido usados ​​para personagens, mas que não eram ajudantes do Sinterklaas. Desde o livro de Schenkman, "São Nicolau e seu servo", três coisas se estabeleceram firmemente no folclore Sinterklaas dos Países Baixos: um servo negro do Sinterklaas e o barco a vapor. O servo ainda não tinha nome no livro de Schenkman. Era um jovem de cor, vestido como um pajem.

Em 1880 apareceram dois criados que auxiliavam Sinterklaas. Após a Segunda Guerra Mundial, soldados canadianos na Holanda organizaram uma celebração Sinterklaas com uma multidão de Zwarte Pieten. Desde então, o Sinterklaas tem sido acompanhado por muitos Piets, frequentemente cada um com sua própria tarefa, liderado por um chefe, o Hoofdpiet. Embora o Sinterklaas sempre tenha permanecido  uma figura imponente e distinta, os Piet costumam-se comportar como acrobatas e brincalhões que pregam partidas às crianças.

O jornal De Groene Amsterdammer criticou pela primeira vez a aparência do Zwarte Piet em 1930. Gradualmente, também outros fizeram o mesmo e até outros países começaram a apresentar mais e mais objecções contra a tradicional aparência negra do Zwarte Piet. Essas objecções foram motivadas pelas associações com o passado de comércio de escravos, do qual a Holanda, juntamente com Portugal, tem uma forte contribuição na História. 

Em 2013, a discussão sobre o assunto tornou-se tão grande que teve de ser criado um grupo de trabalho para arranjar uma alternativa.  Em Agosto de 2014, o Centro Holandês de Cultura Popular e Património Imaterial apresentou uma primeira, na qual o Zwarte Piet deixava de apresentar a sua aparência negra e lábios salientes e passaram a apresentar-se com a cara suja, como com fuligem.

Nos anos seguintes, especialmente nas grandes cidades, a aparência de Zwarte Piet foi sendo adaptada com rostos pintados de várias cores e em 2020 foi apresentado o Piet Cinzento. Algumas dessas alternativas também não foram bem aceites pela sociedade. 

Hoje em dia a Chegada do Sinterklaas à Holanda é um evento carregado de medidas de segurança, com várias manifestações de grupos a favor e contra a tradição do Zwarte Piet, envolvendo muitas vezes violência entre grupos e autoridades.

Imagem de Rudiniemeijer, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

 

A Tradição Actual

A história actual do Sinterklaas conta-nos a chegada do homem santo à Holanda no seu barco a vapor com o nome de Pakjesboot 12 vindo da Espanha, onde vive, sempre a meio do mês de Novembro. Nele, uma trupe de Zwarte Piet o acompanham para o ajudar na tarefa de distribuir presentes pelas crianças. Os Piet ficam com a cara suja da fuligem ao descerem pelas chaminés das casas.

O Sinterklaas percorre as ruas de várias cidades montado num cavalo branco de nome Amerigo, sempre acompanhado pelos Zwarte Piet, que brincam e distribuem guloseimas pelas crianças. O Sinterklaas usa um livro onde tem o nome de todas as crianças bem comportadas e que receberão um presente.

Na noite de 4 para 5 de Dezembro, as crianças deixam os seus sapatos na sala com uma cenoura, para o cavalo, um copo de leite com chocolate para o Sinterklaas e vários biscoitos para os Zwarte Piet. Sinterklaas no seu cavalo e os seus ajudantes chegam ao telhado da casa, onde vários Zwarte Piet descem pela chaminé e trocam os brides deixados nos sapatos por presentes para as crianças.

Escusado será dizer que esse trabalho deixa tudo sujo e desarrumado na sala, provando à criança na manhã seguinte que realmente o Sinterklaas lá esteve.

 

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